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segunda-feira 27 de janeiro de 2020 às 06:02h

'O legado Malê e o povo baiano' por Quezia Barreto

ARTIGO, JUSTIÇA


O Islam foi revelado pelo anjo Gabriel ao profeta Mohammad, de acordo com o alcorão, livro sagrado da religião muçulmana. O desenvolvimento e a criação da religião contaram com a colaboração de Abissínios, negros do Império Etíope, o que impulsionou a difusão do Islam em todo o continente africano tornando- o, nos dias atuais, a religião com maior número de fiéis na África. Isso porque, no início do Islam, muçulmanos perseguidos pelos habitantes de Meca, cidade território da atual Arábia Saudita, migraram para a Abissínia e foram acolhidos pelo rei Negos, no ano de 615 D.C.  .

Livrinho malê: várias palavras do noso vocabulário remetem a essa etnia
Livrinho malê: várias palavras do noso vocabulário remetem a essa etnia Foto: Instituto Histórico Geográfico Brasileiro / BBC News Brasil

É mister destacar a importância dos Salaf, a primeira geração de muçulmanos, constituída pelos Sahabas, companheiros do profeta Mohammad. Um destes, Bilal, homem escravizado originário da abissínia, amigo do Profeta Mohammad, integra a primeira geração de muçulmanos. Bilal foi perseguido e torturado pelo escravagista que detinha seu domínio por ter aderido ao Islam, até que foi “comprado” e liberto. Participou da construção da religião muçulmana desde o início, sendo, pois, um dos mais conhecidos entre os companheiros do profeta Mohammad, ainda mais por sua atuação como Mu’azzin, aquele que faz o chamamento para a oração da Mesquita do Profeta Mohammad.

Sumaya bint Khabbat, mulher negra escravizada, foi uma das sete primeiras pessoas a se converterem ao Islam e foi a primeira mártir deste segmento. Ela foi morta por Abu Lahab, tio do Profeta Mohammad, um dos princípais Quaraixitas, tribo que administrava o comércio religioso na cidade de Meca antes do advento do Islam,  por interesses econômicos. O tio do Profeta se opunha ao Islam e fomentava a perseguição e outras formas de violência contra suas/seus seguidoras/es.

Estes são elementos que compõe a fundação do Islam, não só em Meca, mas, também, no Império Etíope. Tendo muitos dos seus fundadores na condição de negros escravizados na cidade de Meca, a perseguição recaiu sobre os convertidos livres, mas, preferencialmente, sobre os convertidos escravos, porquanto não protegidos por uma tribo ou um patrono.

Aqui no Brasil o Islam é considerado uma religião afro-brasileira, pois fora trazida pelos?malês, negros de?origem islâmica, em sua maioria Haussás, do norte da Nigéria. O termo?malê?tem origem na palavra?imalê, que significa “muçulmano” na língua? iorubá.

Para manter viva a crença no profeta Mohammad, os malês se reuniam em lugares afastados e a portas fechadas para fazer orações, ler passagens do Corão e celebrar festas do calendário muçulmano. A constituição de 1824 além de instituir o poder Moderador, concentrando direitos quase ilimitados e divinos nas mãos de Dom Pedro I, portanto, a definição da religião oficial do Império, ato que por si só gera preconceito direto e aberto às outras formas de adoração, o estado brasileiro impõe limites a forma de adoração. Percebe-se que a exteriorização dos cultos estava limitada apenas aos locais anteriormente escolhidos para tal fim, provavelmente de conhecimento prévio do próprio Estado, forma de manter vigilância sobre os fatos. Sendo assim, o candomblé e outras religiões como o islã não tinham o direito à liberdade de sua prática religiosa.

O artigo 276 do Código Penal de 1830, aliás, proibia o culto de outra religião que não fosse a do Estado. Mesmo assim, os alufás, nome dado aos dirigentes religiosos muçulmanos e que, em iorubá, significa sacerdote de Ifá elemento composto da religião iorubá, transmitiam seu conhecimento aos mais jovens, sendo a oralidade uma característica fundamental na experiência histórica do negro brasileiro muçulmano.

Outra característica notável é que os escravos muçulmanos, de acordo com o Islam, dedicavam as sextas-feiras, dia sagrado para a religião, à prece e à meditação. Nesse dia, usavam roupas brancas, tradição islâmica incorporada pela Bahia, também com o culto a Oxála.

Em Salvador existem provas concretas da existência desses escravos através de documentos históricos escritos em árabe, localizados na Biblioteca Pública do Estado da Bahia, também, na arquitetura da Igreja da Lapinha, que possui trechos do Al Corão em inscrições árabes sobre os 99 nomes de Deus, um adorno como se costuma fazer em Mesquitas ao redor do mundo. Abadás e turbantes também são trajes que guardam elementos culturais islâmicos.

A revolta dos Malês, ocorrida em 1835, foi insurgência contra o regime escravocrata, mas, sem dúvidas, um levante em combate à intolerância religiosa, uma vez que, mesmo alforriados, os negros de ganho não podiam exercer sua religiosidade e deviam ser convertidos ao catolicismo com obrigatoriedade.  Alguns sofreram com a imposição do catolicismo, mas, no geral, a Igreja Católica encontrou muita resistência nos?malês. Eles não aceitavam o batismo católico, muito menos desejavam seguir os ritos da Santa Sé. O quadro se agravou quando o governo em Salvador durante a regência trina 1831 a 1834, proibiu qualquer manifestação religiosa que não fosse católica, e a mesquita do bairro da Vitória, reduto dos muçulmanos da região, foi destruída.

O inquestionável, mas esquecido legado Malê no Brasil, é indicativo de que o Islam, religião de matriz africana, com relevância no conjunto de lutas libertárias do país, também sofre com o obscurecimento e negativa de sua importância sociocultural, herança de militância e resistência. Mas, e se os Malês tivessem vencido?

Por Quezia Barreto – Membro da Comissão Especial de Combate à Intolerância Religiosa da OAB-BA

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