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quinta-feira 13 de agosto de 2020 às 08:54h

'O presidente é privatista, mas elegante, não se envolve', diz Salim Mattar

NOTÍCIAS, POLÍTICA


O ex-secretário de Desestatização Salim Mattar afirmou em entrevista ao jornal O Globo que a privatização incomoda e que, por isso, talvez não seja tão profunda. Ele disse que o presidente Jair Bolsonaro é privatista, mas que não se envolve e não fica “aporrinhando” ministro para isso.

Fora do governo, Salim adiantou que vai se engajar na campanha de Bolsonaro caso este se candidate à reeleição em 2022. “Vou estar fortemente engajado na agenda de costumes do presidente Bolsonaro porque, para nós, ele foi uma ruptura.”

Salim contou que ele e o ex-secretário de Desburocratização Paulo Uebel combinaram de sair juntos do governo. Mas assegurou que a turbulência no mercado ocorreu por outros fatores, porque os dois são “peixinhos pequenos”.

Quando o senhor chegou ao governo, disse que iria privatizar tudo, mas deixa o cargo com novas estatais. O que deu errado?

Nada deu errado. Minha vontade, e a do ministro Paulo Guedes, era privatizar tudo, porém temos uma orientação clara do presidente de que Caixa Econômica, Banco do Brasil e Petrobras, não. A NAV, que foi criada, é uma empresa de segurança nacional, que existe em outros países, como Inglaterra e França. Na transição, recebemos um relatório que tinha 134 empresas, e quando eu cheguei ao governo descobri que eram 698: 46 empresas diretas, 164 subsidiárias, 257 coligadas e 231 com participação. Nós já vendemos 84.

Mas apenas a venda de subsidiárias avançou, como foi o caso da BR Distribuidora, por exemplo. Por quê?

Vender subsidiária é mais fácil, não tem que ir ao Congresso. Então, é natural que subsidiária e coligadas sejam vendidas mais rápido. Desinvestimento é facílimo, é uma ação. Nós fizemos quase R$ 150 bilhões em desinvestimentos e desestatizações, desde o ano passado até agora.

A decisão de jogar a modelagem das privatizações para o BNDES tirou parte de suas funções?

Pela legislação, a venda de empresas é monopólio do BNDES. Mesmo que seja pequenininha, eu não posso vender direto. O BNDES contrata consultoria, escritório de advocacia, auditoria, banco, e tudo isso leva um ano. Tem 14 empresas no BNDES.

Por que é tão difícil privatizar?

establishment constituído nesses 30, 40 anos, Judiciário, Executivo, Legislativo, sindicatos, servidores públicos, fornecedores de estatais, não querem. Não só no Brasil, mas em outros países também, é a grande barreira de mudança. Como nós viemos para poder transformar o país, claro que a privatização incomoda, e talvez não seja tão profunda.

Em entrevista à GloboNews, o senhor disse que ministros setoriais são uma barreira às privatizações. Como era essa interlocução?

Todos os ministros são afáveis. Agora, a decisão de privatizar a empresa é deles. O presidente Bolsonaro não interfere, ele delega para o ministro, e cada um tem a sua justificativa.

Por que decidiu sair do governo agora?

Eu saí da Localiza e vim para o governo. Se não tivesse feito isso, não teria feito um processo de sucessão espetacular, porque a Localiza está bombando, crescendo mais do que na minha época. No governo, usando todo o meu conhecimento da iniciativa privada, eu constituí uma equipe porreta, fantástica, de servidores de carreira e gente da iniciativa privada, e essa equipe aprendeu a desestatizar e a desinvestir. Na hora em que vi que eu tinha um processo robusto, falei “gente, eu descobri o ovo de Colombo”. Qualquer um que pegar leva o processo adiante. Com o coronavírus, eu comecei a avaliar essa possibilidade (de sair).

Não foi porque percebeu pouca disposição do presidente em seguir com o programa de desestatização?

O presidente é privatista. Agora, ele é elegante, não se envolve, não fica aporrinhando ministro.

O senhor era uma ponte com o setor privado em Brasília. Sua saída não deixará os empresários bolsonaristas desencantados?

Eu era um para-raios. Quando alguém tinha alguma dificuldade, eu orientava. O empresariado, hoje, tem um reconhecimento, uma gratidão de que o Brasil poderia estar em piores mãos. Há um reconhecimento de que Bolsonaro quebrou o processo da esquerda no poder. Mas não se conserta o país em quatro anos. Vai ser preciso ter dois, três mandatos.

Os Correios foram a gota d’água para sua saída?

Não. Os Correios já estão no PPI, caminhando. É só uma questão de time, é uma das 14 empresas que serão privatizadas e não tem esse peso.

Fora do governo, o senhor vai defender o projeto de Bolsonaro?

Fora do governo, vou continuar apoiando fortemente a causa liberal do ministro Guedes e vou estar fortemente engajado na agenda de costumes do presidente Bolsonaro, porque para nós ele foi uma ruptura.

Vai se envolver novamente em campanha?

Se ele se candidatar, sim.

O ministro disse, ao falar sobre sua saída, que existem os que insistem e os que desistem. Ele foi deselegante?

Eu entendo ele. Com um DAS de R$ 17 mil, que é o salário do pessoal de fora que chega no governo, fica muito difícil. Isso foi feito de uma forma propositada por governos anteriores para ter menos pessoas de fora. Quem vem com um salário desse? Quem já está feito na vida ou alguém que venha de propósito. Isso é ruim, porque você não consegue trazer gente muito boa. Guedes quis dizer que existem pessoas mais resilientes, que estão sofrendo com salário baixo, mas continuam porque aderiram à causa. O meu caso e o do Uebel são diferentes. Ele é o secretário mais atuante da Esplanada. Ele mora em Porto Alegre, com esposa e duas filhas, viaja toda sexta e volta toda segunda-feira. Como uma remuneração dessa? Chega uma hora em que as pessoas cansam.

Vocês combinaram de sair ao mesmo tempo?

Nós temos conversado sobre isso há mais tempo, e o ministro já sabia desse nosso sentimento. Chegamos à conclusão de que seria melhor para o ministério sairmos juntos do que sair um agora e outro daqui a 15 dias.

E a turbulência que a debandada gerou no mercado financeiro?

A turbulência no mercado é por outras coisas. Eu e Uebel somos dois peixinhos pequenos.

Não se sente frustrado por não ter conseguido executar seus planos?

Foi uma experiência fantástica, que eu recomendo. Estou feliz de ter vindo para o governo e saio com a minha consciência tranquila. Deixei um legado. Um decreto que obriga as estatais a apresentarem resultado a cada dois anos, um estatuto do padrão da OCDE (Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico) implantado em todas as nossas empresas. Deixei uma venda de R$ 150 bilhões de desestatizações e desinvestimento. Trouxemos executivos e conselheiros do mercado para as empresas. Temos uma forte governança. Não tem roubalheira nesse governo, e, em 2019, tivemos um lucro de R$ 109 bilhões, contra um prejuízo no ano anterior.

A secretária do PPI, Martha Siellier, é um nome para o seu cargo?

Não posso opinar, porque o ministro tem outros bons nomes.

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