terça-feira 3 de agosto de 2021
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segunda-feira 3 de maio de 2021 às 07:13h

Eike Batista e o sócio chinês

NOTÍCIAS


Desde que o grupo X quebrou, em 2014, vez por outra Eike Batista surge com um novo negócio que ele diz ser capaz de levá-lo de volta ao topo do capitalismo nacional. A nova promessa é segundo a coluna de Malu Gaspar no jornal O Globo um investidor chinês que se diz disposto a aplicar até  milhões de dólares na mineradora MMX, atualmente em recuperação judicial.

No final de março, argumentando que estava para receber os recursos, a direção da mineradora pediu à Justiça que adiasse o julgamento que decidiria se mantinha ou não a falência da companhia, que já havia sido decretada em 2019. A sessão estava marcada para 31 de março.

Desde então, já foram apresentadas outras três petições solicitando mais tempo para depositar os recursos. Até agora, porém, o dinheiro não apareceu, e as informações que o fundo vem divulgando sobre seus negócios não resistem a uma simples verificação. Por causa disso, cresce entre credores e acionistas da MMX a suspeita de que o dinheiro dos chineses seja mais um blefe de Eike.

Ontem, uma decisão do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro desconsiderou os pedidos da MMX e pautou o julgamento sobre a falência para 19 de maio.

O fundo que promete colocar os milhões na MMX se chama China Development Integration Limited, ou CDIL. É sediado no território de Hong Kong e tem como representante no Brasil o executivo Pedro Guimarães, sócio de uma empresa de investimentos chamada Rubicon Capital Partners.

Nas entrevistas que já deram no Brasil, Guimarães e seus parceiros – o chinês Andy Lai e o francês de ascendência árabe Edmond Amir – disseram que o CDIL é ligado ao governo da China e está integrado à Iniciativa da Rota da Seda, um programa do governo daquele país que financia empreendimentos em infraestrutura, especialmente na Ásia, na Europa e na África. Nessas conversas, eles sugeriram ter acesso a “capital infinito” para investir nos empreendimentos de Eike.

Contudo, a embaixada da China no Brasil informou à coluna que o CDIL não tem nenhuma ligação com o governo chinês. O fundo também não está entre as dezenas de instituições, plataformas de investimento e think tanks listados no site do governo chinês com informações sobre a Iniciativa da Rota da Seda.

Embora seus representantes digam ter 3 bilhões de dólares já disponíveis para investir no Brasil, os registros públicos de empresas de Hong Kong, onde fica a sede da CDIL, informam que seu capital social é de 128 dólares.

Além disso, uma checagem na internet e nas redes sociais mostra que cinco das onze pessoas apresentadas no site do CDIL como membros de sua administração não aparecem em nenhum outro site, redes sociais ou cadastro público de profissionais ligados a negócios.

Em alguns casos, até se encontra um homônimo. Por exemplo: quando se pesquisa sobre Jacqueline Tam, que segundo o CDIL é analista-chefe, diretora administrativa e chefe do escritório de Hong Kong, encontram-se várias pessoas com o mesmo nome. Há uma terapeuta de crianças na Nova Zelândia, uma executiva que vive em Palo Alto e mais de 60 perfis no LinkedIn. Mas nenhum deles informa trabalhar no CDIL.

Dos outros seis executivos, Andy Lai e o diretor de assuntos internacionais Edmond Amir aparecem em outros registros como pessoas ligadas ao CDIL.

Os outros estão nas redes como profissionais de outras empresas. E um deles, o diretor-jurídico Wu Wing Kit, tem o mesmo nome de um advogado condenado em 2014 a seis anos de prisão, num caso rumoroso de lavagem de dinheiro em Hong Kong. Mas, segundo as informações disponíveis sobre o processo no registro público do território chinês, houve um segundo julgamento e Wing Kit foi absolvido.

O próprio sócio de Eike no Brasil, Pedro Guimarães, é um novato no mundo dos grandes negócios. Sua gestora, a Rubicon, foi criada em março de 2020 e não executou nenhum investimento ainda. Guimarães vem de uma experiência de cinco anos na PetroRio, petroleira do empresário Nelson Tanure.

Nos últimos nove meses na companhia, a função dele era justamente trazer investimentos para projetos de outras áreas que não a de petróleo. Nenhum foi concretizado. Foi tentando emplacar negócios na PetroRio que Guimarães diz ter conhecido os executivos do CDIL e apresentado a Eike Batista.

Nos últimos dias, tive várias conversas com Guimarães, que também encaminhou respostas a questões enviadas por escrito. Nessas conversas, ele primeiro disse que a empresa era relacionada de várias formas a estatais chinesas, sem explicar exatamente qual a ligação.

Depois, por escrito, afirmou que a ligação do CDIL com o governo chinês se dá por meio de negócios feitos com suas estatais. Afirmou também que seu presidente, Andy Lai, foi membro da Conferência Consultiva Política do Povo Chinês (CCPPC), um apêndice do parlamento do qual participam pessoas com algum status, incluindo não membros do Partido Comunista.

Guimarães acrescentou ter mencionado a Rota da Seda nas entrevistas como um “termo geral sobre a natureza dos projetos de infraestrutura e área geográfica que pretendem cobrir”, sem ligação com nenhuma instituição oficial.

Quando eu disse que não estava encontrando nas redes informações sobre os profissionais da administração que apareciam no site do CDIL, Guimarães afirmou que conheceu alguns deles pessoalmente e se propôs a enviar seus currículos.

Mas, dos quatro currículos que enviou, só dois eram de pessoas que não haviam sido encontradas nas redes. E uma delas, a diretora de óleo e gás do CDIL, tinha uma experiência profissional concentrada em viagens de turismo e no acompanhamento de jantares e viagens oficiais de algumas autoridades chinesas, num currículo ilustrado com fotos dos eventos. Os outros currículos não foram enviados.

O futuro sócio de Eike Batista afirmou também que o fato de o CDIL ter capital social de apenas 128 dólares “não significa nada”: “As maiores corporações do mundo têm valor nominal por ação de $ 0,000001.”

A questão é que, mesmo que possa ser considerado normal colocar bilhões de dólares numa empresa cujo capital social é de pouco mais do que uma centena, não é possível confirmar o histórico de investimentos de mais de US$ 30 bilhões que, segundo Guimarães, o CDIL já realizou.

Nas últimas semanas, consultei quatro gestores de grandes bancos e fundos de investimentos brasileiros e nenhum deles nunca tinha sequer ouvido falar do fundo ou de algum investimento de que ele tivesse participado.

Mesmo no site do CDIL, apenas um dos cinco projetos listados, uma mina de carvão na Mongólia, é descrito como um investimento em curso. O resto são ideias e projetos a realizar. Mas não há informações públicas disponíveis sobre a mina. Nem sobre a Mongolian Coal Company – empresa que, segundo o CDIL, a explora. A única referência é um site para investidores com um comunicado sobre uma troca de ações realizada em 2013.

Para comprovar que o negócio existe, Guimarães enviou à coluna fotos da cerimônia de assinatura de um acordo de uma joint venture em 2018, em que aparecem Andy Lai, e Edmond Amir.

Mas, segundo o próprio Guimarães, esse investimento foi postergado para reformulação: de carvão natural para carvão gaseificado, tecnologia caríssima e de difícil retorno financeiro. Ele diz que o projeto será retomado “assim que terminar a restrição da Covid de viajar da China para a Mongólia”.

Chama a atenção nos planos do CDIL o fato de que os US$ 3 bilhões que os chineses dizem ter disponíveis para investir no Brasil estão comprometidos com apenas um empreendedor: Eike Batista. 

Além do aporte na MMX, Guimarães afirma que o fundo vai investir também numa usina de energia solar com capacidade de geração de 1.100 MW no Porto do Açu, no litoral norte fluminense.

O Porto, idealizado por Eike, hoje é administrado pela Prumo Logística, da qual ele não é sócio.

A antiga empresa de logística de Eike, a OSX, ainda detém uma área no Açu, que aluga à Prumo. Toda a receita é entregue a um comitê de credores. O único privilégio de Eike, hoje, no Açu, é o acesso livre para visitar o porto quando quiser – o que ele fez no início do ano, com o diretor do CDIL, Edmond Amir.

Na quarta-feira, Pedro Guimarães enviou um press release informando sobre uma associação entre o CDIL e a estatal chinesa China Machinery Engeneering Corporation, a Cemec, para a construção da usina. O comunicado diz que será investido US$ 1 bilhão no projeto, que ocupará uma área de 11 milhões de metros quadrados.

 “Eike Batista está muito empolgado”, diz o texto, em que o ex-bilionário é citado dando uma declaração bem ao estilo dos velhos tempos: “Ele trará energia solar confiável para as comunidades ao redor e vai criar centenas de oportunidades de emprego para os moradores da região”.

Mas, mais uma vez, não é só o discurso que segue o estilo de Eike nessa história. Além de ser um projeto megalômano – a usina prometida para o Açu teria o dobro da capacidade da maior usina de energia solar já instalada no Brasil –, o plano da CDIL também parece mais uma promessa sem lastro. 

Primeiro porque, segundo executivos da Prumo, a empresa nunca foi procurada para discutir detalhes básicos do projeto. Eike e seus sócios não perguntaram à Prumo nem se há espaço disponível para instalar a usina ou qual seria o valor do aluguel, por exemplo.

Se tivessem procurado a Prumo, Guimarães, Eike e seus sócios chineses saberiam que a empresa já fez estudos para outros interessados em instalar usinas fotovoltaicas no porto.Mas todas desistiram, porque o custo do aluguel é tão alto que inviabiliza o negócio.

Além disso, O CDIL teria que refazer o orçamento, porque não há linhas de transmissão disponíveis para transportar a energia produzida para o mercado. E apenas a linha de transmissão para uma usina do tamanho da que foi anunciada já custa US$ 1 bilhão. Guimarães, porém, diz que o bilhão de dólares que pretende investir é suficiente.

Nas conversas que tivemos, o executivo justificou a escolha de Eike como parceiro pelo “grande potencial dos projetos”. Mas disse que ele não é o único, e que o CDIL tem interesse em adquirir outras empresas em dificuldades.

Uma delas seria a Odebrecht, a quem ele teria procurado por meio de um advogado. Não chegou, porém, a ser recebido no grupo. Quando perguntei qual empresa do grupo Odebrecht  ele tinha interesse em comprar, Guimarães respondeu que “todas elas”.

Enquanto não conseguem outros parceiros, Guimarães e seu sócio chinês mimam Eike Batista. Além de anunciar o aporte para tirar a MMX falência, os representantes do CDIL entregaram uma carta à Procuradoria-Geral da República se comprometendo a quitar a multa de R$ 800 milhões de reais que Eike aceitou pagar ao Ministério Público como parte de seu acordo de delação premiada. 

Na ocasião, ele admitiu crimes como corrupção, lavagem de dinheiro e manipulação de mercado, e recebeu penas que, somadas, são de mais de 40 anos. Depois da delação, Eike  ainda vai ter de cumprir nove meses de prisão em regime fechado e mais três anos em regime semi aberto e aberto domiciliar.

Guimarães e os chineses dizem que a conta é alta, mas o investimento vale a pena. Resta saber se esse dinheiro existe mesmo – ou se vai acabar passando para a história como mais um dos planos mirabolantes de Eike que nunca se tornam reais.

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